samantha buglione
sem pretensão...
quarta-feira, 11 de janeiro de 2012
Sobre a MP 557
http://www.viomundo.com.br/denuncias/sonia-correa-em-nome-do-maternalismo-toda-invasao-de-privacidade-e-permitida.html
O lixo do futuro
Sábado fui até um ferro velho de catadores na Praia dos Ingleses. Minha idéia era fazer aquele tipo de visita que parece viagem no tempo, ir a algum lugar inusitado e achar uma relíquia que passou despercebida ao olhar desatento. Imaginava encontrar ganchos para pendurar vasos de flores, alguma mesa de ferro para ser recuperada, uma baixela velha para servir de base para plantas e por aí vai.
Como já sabemos a expectativa é a principal razão da decepção. E a visita não foi diferente. Claro que, neste caso, parte da culpa foi eu ter em mente um típico brique portenho ou um mercado de pulgas de alguma cidade pequena da Europa. Mas, sonhos a parte, o impactante não foi ver a realidade destoante da minha imaginação, mas perceber a feiúra e inutilidade do nosso lixo.
Quando o Brasil muda o seu padrão de produção e consumo, de produtos duráveis para descartáveis (ou com baixa vida útil), algo marcante da era Collor, o lixo, também mudou. Enquanto que um moedor de café antigo serve para seguir moendo mecanicamente ou como utensílio de decoração, os moedores modernos são um emaranhado de plástico e fios elétricos que, quando descartados, a única finalidade possível é a de entulhar lixões. Isso sem falar do lixo tecnológico que todos sabem é uma das maiores desgraças do nosso tempo. Pilhas de aparelhos de vídeo cassete que não servem nem para aparador de porta ou mesinha descolada, fazem montanhas nesses ferros velhos. O que havia de mais bonito era um tacho de cobre que outrora era ótimo para fazer doces. Incrível que ainda pode ser usado para a mesma finalidade, porém, fica mais bonito em algum canto com revistas ou flores. O problema, aí, é que o dono do ferro velho já quis faturar, talvez por saber que era uma das únicas coisas de valor, e cobrou uma fortuna. O tacho ficou lá. A idéia sofisticada de valor é a capacidade de algo ser reutilizado, redefinido ou, simplesmente, recuperado. Infelizmente, ainda vivemos o sonho de que o descarte é mais interessante que os “3r”. A indústria vende isso e fatura exatamente nessa obsolescência as vezes real, mas, em muito, planejada. As coisas tornam-se obsoletas ou porque não funcionam mais, a exemplo dos computadores que não comportam um novo processador, ou porque esteticamente ofendem a ordem atual, como as TVs grandes versus as de tela plana. Seja uma ou outra razão estamos produzindo um lixo inútil cujo o preço será, no futuro, um cenário tal qual Mad Max, ficando no sonho a imagem de um mercado de pulgas em ruas calçadas e com cafés agradáveis.
Como já sabemos a expectativa é a principal razão da decepção. E a visita não foi diferente. Claro que, neste caso, parte da culpa foi eu ter em mente um típico brique portenho ou um mercado de pulgas de alguma cidade pequena da Europa. Mas, sonhos a parte, o impactante não foi ver a realidade destoante da minha imaginação, mas perceber a feiúra e inutilidade do nosso lixo.
Quando o Brasil muda o seu padrão de produção e consumo, de produtos duráveis para descartáveis (ou com baixa vida útil), algo marcante da era Collor, o lixo, também mudou. Enquanto que um moedor de café antigo serve para seguir moendo mecanicamente ou como utensílio de decoração, os moedores modernos são um emaranhado de plástico e fios elétricos que, quando descartados, a única finalidade possível é a de entulhar lixões. Isso sem falar do lixo tecnológico que todos sabem é uma das maiores desgraças do nosso tempo. Pilhas de aparelhos de vídeo cassete que não servem nem para aparador de porta ou mesinha descolada, fazem montanhas nesses ferros velhos. O que havia de mais bonito era um tacho de cobre que outrora era ótimo para fazer doces. Incrível que ainda pode ser usado para a mesma finalidade, porém, fica mais bonito em algum canto com revistas ou flores. O problema, aí, é que o dono do ferro velho já quis faturar, talvez por saber que era uma das únicas coisas de valor, e cobrou uma fortuna. O tacho ficou lá. A idéia sofisticada de valor é a capacidade de algo ser reutilizado, redefinido ou, simplesmente, recuperado. Infelizmente, ainda vivemos o sonho de que o descarte é mais interessante que os “3r”. A indústria vende isso e fatura exatamente nessa obsolescência as vezes real, mas, em muito, planejada. As coisas tornam-se obsoletas ou porque não funcionam mais, a exemplo dos computadores que não comportam um novo processador, ou porque esteticamente ofendem a ordem atual, como as TVs grandes versus as de tela plana. Seja uma ou outra razão estamos produzindo um lixo inútil cujo o preço será, no futuro, um cenário tal qual Mad Max, ficando no sonho a imagem de um mercado de pulgas em ruas calçadas e com cafés agradáveis.
quarta-feira, 4 de janeiro de 2012
Que venha 2012
A cada dia me convenção de que o conceito de analfabetismo funcional se aplica à diferentes situações da vida cotidiana. A idéia básica é que analfabeto funcional é alguém que le algo, mas não compreende o sentido. Esse analfabetismo não chega a ser uma variável do político de Brecht, mas compartilha com ele a semelhança de ignorar algo. Pois bem, podemos afirmar que somos em alguma medida analfabetos funcionais diante de contingências ou de algo que nos foge a compreensão. Quem não é da área da saúde pode entender (dar conta, intendere do latim) racionalmente alguma explicação sobre um dado tratamento, mas raramente irá compreender (conter em si, com-prehendere do latim) a diversidade de implicações que tratamento trará. Igualmente nossa compreensão sobre os detalhes do funcionamento de um foguete ou de como determinado poluidor prejudica a harmonia da vida no planeta. O mesmo ocorre em relações contratuais. Não raras vezes fazemos contratos entendendo, imediatamente, os detalhes, mas é no mediato que é posto em cheque nossa alfabetização. E isso vale tanto para quem é das letras jurídicas quanto para quem não é. O que é interessante é que percebemos com ou maior ou menor seriedade as áreas em que somos mais ou menos analfabetos. O triste é que em algumas situações todos se autorizam a dar ‘pitaco’, mesmo que estejam operando na zona do pré-conceito. Por exemplo, poucos leitores se arvorariam a tecer teses sobre o funcionamento de um foguete, mas muitos se autorizariam a falar do processo de educação ou de ética ambiental. O ponto é que podemos partir de dois pressupostos distintos. O primeiro é o que nos vende a idéia de uma plena capacidade para todas as áreas da compreensão e do dialogo, apenas porque somos civilmente capazes e porque temos alguma formação educacional ou experiência pratica. Esse pressuposto nos leva a crer que estamos habilitados para uma diversidade de relações humanas. O segundo pressuposto, mais cauteloso, é o que crê que sempre vamos deixar passar algo, por mais que observemos as variáveis e entendamos o objeto da questão. A razão é simples: informação, afeto, desejo, conhecimento, humor, saúde, expectativa, tudo afeta a análise e a compreensão. Por certo 2012 trará muitos erros e acertos de diversas maneiras. O que importa não é sofrer com o erro ou se envaidecer com o acerto, mas agir impecavelmente em cada escolha. E ser impecável é fazer o melhor. Que os erros e o acertos sirvam, isso sim, para nós fazer pessoas melhores! E que venha 2012!
quarta-feira, 2 de novembro de 2011
Lula vai se tratar pelo SUS
To passada. É interessante ver as reações diante da campanha "Lula vai se tratar pelo SUS".
Lula induziu as pessoas a acreditarem que igualdade é simetria, que é algo que nao comporta tratamento diferente: todos devem ter carro, todos devem ir para a universidade, todos podem tudo. Lula, como estrategia, tambem dissociava sua imagem da de Chefe de Estado, na linha do seu sentido de igualdade, fazia crer que ele era um igual. Um chefe de estado nao é um igual aos humanos ordinarios como nós. Tanto foi seu uso irresponsavel de categorias como a da igualdade que ao inaugurar uma UPA disse que "gostaria de ficar doente só para ser tratado pelo SUS". Resultado, ao ficar doente as pessoas, justamente, desejaram que o Lula ordinário fosse coerente com seu discurso e se tratasse como todos os outros. O erro de Lula foi, na hora da doença, querer ser o chefe de Estado que negava, como se fosse possivel, de forma impune, ocupar o melhor de dois mundos. Resultado: rancor, tristeza e violencia.
Muitos questionam a campanha da internet com o argumento de que nada similar foi feito para pessoas como Ruth e ACM. A resposta é simples: essas outras pessoas não encarnaram, como Lula, o discurso da igualdade sem diferença. Uma campanha dessas para um Sarney ou ACM não faz o menor sentido porque eles, em nenhum momento, defendem a igualdade que Lula defendeu.
Lição 01: nao se iludir com discursos populescos de pessoas que ignoram a complexidade do lugar que ocupam.
Lição 02: diferença e desigualdade são coisas distintas. Defender a igualdade não pode por em risco o respeito as diferenças e o reconhecimento do merito.
Lição 03: o SUS atende 80% dos casos de cancer no pais. A diferença é que quem tem plano de saúde consegue um diagnostico mais rapido. Ou seja, ao fim e ao cabo, todo mundo, em algum momento, é tratado pelo SUS. O problema é que os que são tratados desde o inicio pelo SUS sofrem mais ou morrem e que, quem tem plano de saude, sempre fura a fila.
De qualquer forma vale a pena ver o video em que o ex-Chefe de Estado Lula pede para ficar doente: http://www.youtube.com/watch?v=Sb2hoU-1AHU
Lula induziu as pessoas a acreditarem que igualdade é simetria, que é algo que nao comporta tratamento diferente: todos devem ter carro, todos devem ir para a universidade, todos podem tudo. Lula, como estrategia, tambem dissociava sua imagem da de Chefe de Estado, na linha do seu sentido de igualdade, fazia crer que ele era um igual. Um chefe de estado nao é um igual aos humanos ordinarios como nós. Tanto foi seu uso irresponsavel de categorias como a da igualdade que ao inaugurar uma UPA disse que "gostaria de ficar doente só para ser tratado pelo SUS". Resultado, ao ficar doente as pessoas, justamente, desejaram que o Lula ordinário fosse coerente com seu discurso e se tratasse como todos os outros. O erro de Lula foi, na hora da doença, querer ser o chefe de Estado que negava, como se fosse possivel, de forma impune, ocupar o melhor de dois mundos. Resultado: rancor, tristeza e violencia.
Muitos questionam a campanha da internet com o argumento de que nada similar foi feito para pessoas como Ruth e ACM. A resposta é simples: essas outras pessoas não encarnaram, como Lula, o discurso da igualdade sem diferença. Uma campanha dessas para um Sarney ou ACM não faz o menor sentido porque eles, em nenhum momento, defendem a igualdade que Lula defendeu.
Lição 01: nao se iludir com discursos populescos de pessoas que ignoram a complexidade do lugar que ocupam.
Lição 02: diferença e desigualdade são coisas distintas. Defender a igualdade não pode por em risco o respeito as diferenças e o reconhecimento do merito.
Lição 03: o SUS atende 80% dos casos de cancer no pais. A diferença é que quem tem plano de saúde consegue um diagnostico mais rapido. Ou seja, ao fim e ao cabo, todo mundo, em algum momento, é tratado pelo SUS. O problema é que os que são tratados desde o inicio pelo SUS sofrem mais ou morrem e que, quem tem plano de saude, sempre fura a fila.
De qualquer forma vale a pena ver o video em que o ex-Chefe de Estado Lula pede para ficar doente: http://www.youtube.com/watch?v=Sb2hoU-1AHU
terça-feira, 3 de maio de 2011
Fosfateira em Anitápolis: justiça fala não!
O Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4) manteve a ação civil pública da Defensoria Pública da União em SC (DPU-SC) contra a instalação da Indústria de Fosfatados Catarinense, em Anitápolis, na Grande Florianópolis. A DPU-SC solicita a suspensão dos procedimentos de licença prévia, instalação ou operação da fosfateira até avaliação dos riscos à saúde.
Para quem pensa que o que envolve a empresa de fosfato da Yara e Bunge, agora vendida para a Vale, é apenas uma questão de meio ambiente, está totalmente enganado – apesar de que nunca uma questão de meio ambiente é apenas de meio ambiente. Além de destruir um paraíso ecológico, mata nativa e água, a fosfateira também colocará em risco a saúde dos moradores e trabalhadores.
Com um sério porém: quem vai pagar a conta dos tratamentos será, mais uma vez, o poder público. Será o nosso dinheiro que terá que dar conta dos problemas respiratórios, de pele e outras complicações. Especialistas já deixaram claro que os materiais para fazer o fosfato são inimigos da saúde. Quem pensa que a fosfateira é a melhor alternativa econômica para os moradores da região de Anitápolis também está enganado, salvo se acredita em contos de fada do tipo: pouco trabalho e muito dinheiro.
Anitápolis e região são um dos lugares mais bonitos de Santa Catarina – mais bonitos e mais ricos. Sinceramente, não consigo entender por que o povo de lá não investe em agricultura orgânica, já que é a que mais cresce no mundo e em turismo de aventura, que só nos últimos anos rendeu alguns bilhões. Anitápolis poderia, ainda, em vez de plantar pínus, criar abelha nativa, cujo mel é medicinal (e caro), fazer um polo de ecoturismo, ganhar dinheiro com cotas de carbono ou investir em piscicultura, preferencialmente a orgânica, que dá mais dinheiro. Opções não faltam.
É claro que nenhuma delas vai render milhões para o agricultor ou vai ser sem trabalho. Dinheiro fácil sem trabalho só na novela, no BBB, nos contos modernos da carochinha e, claro, para algum amigo do rei. De contrapartida, quem pensar em alternativas economicamente viáveis e inteligentes vai garantir o seu futuro e o das próximas gerações. Além de economizar com saúde conseguindo respirar direito na velhice. Como já dizia Ockham, a melhor alternativa é sempre a mais simples, e a simples, no caso de Anitápolis, é a que está nas mãos das pessoas que moram lá e não em uma única indústria.
buglione@babele.com.br
Para quem pensa que o que envolve a empresa de fosfato da Yara e Bunge, agora vendida para a Vale, é apenas uma questão de meio ambiente, está totalmente enganado – apesar de que nunca uma questão de meio ambiente é apenas de meio ambiente. Além de destruir um paraíso ecológico, mata nativa e água, a fosfateira também colocará em risco a saúde dos moradores e trabalhadores.
Com um sério porém: quem vai pagar a conta dos tratamentos será, mais uma vez, o poder público. Será o nosso dinheiro que terá que dar conta dos problemas respiratórios, de pele e outras complicações. Especialistas já deixaram claro que os materiais para fazer o fosfato são inimigos da saúde. Quem pensa que a fosfateira é a melhor alternativa econômica para os moradores da região de Anitápolis também está enganado, salvo se acredita em contos de fada do tipo: pouco trabalho e muito dinheiro.
Anitápolis e região são um dos lugares mais bonitos de Santa Catarina – mais bonitos e mais ricos. Sinceramente, não consigo entender por que o povo de lá não investe em agricultura orgânica, já que é a que mais cresce no mundo e em turismo de aventura, que só nos últimos anos rendeu alguns bilhões. Anitápolis poderia, ainda, em vez de plantar pínus, criar abelha nativa, cujo mel é medicinal (e caro), fazer um polo de ecoturismo, ganhar dinheiro com cotas de carbono ou investir em piscicultura, preferencialmente a orgânica, que dá mais dinheiro. Opções não faltam.
É claro que nenhuma delas vai render milhões para o agricultor ou vai ser sem trabalho. Dinheiro fácil sem trabalho só na novela, no BBB, nos contos modernos da carochinha e, claro, para algum amigo do rei. De contrapartida, quem pensar em alternativas economicamente viáveis e inteligentes vai garantir o seu futuro e o das próximas gerações. Além de economizar com saúde conseguindo respirar direito na velhice. Como já dizia Ockham, a melhor alternativa é sempre a mais simples, e a simples, no caso de Anitápolis, é a que está nas mãos das pessoas que moram lá e não em uma única indústria.
buglione@babele.com.br
terça-feira, 12 de abril de 2011
Culpa de quem em Realengo?
Um dos grandes casos de psicose do início do século passado foi “o caso das irmãs Papin”, duas irmãs que trabalhavam como serviçais na casa de uma senhora abastada da França. Certo dia, as irmãs Papin, tomadas de uma fúria demoníaca, arrancaram os olhos de sua patroa e da filha dela a faca e as deixaram para morrer. Comoção geral à época e muita gente propôs as mais mirabolantes teses para justificar os fatos. Alguns advogavam que a revolução marxista era a responsável, pois o proletariado iria destruir a burguesia onde quer que ela estivesse. Cada época tem as suas explicações.
Agora, o caso de Wellington nos remete novamente às tentativas sempre incompletas de explicação. O bullying, a violência generalizada do Rio de Janeiro, o Islã, os pais, os professores, etc. No caso das irmãs Papin, foi Lacan quem deu a explicação que menos agradou a todos, pois deixou passar ao largo o consolo e a esperança de que nada daquilo aconteceria de novo.
Cada momento da vida é um evento, e é impossível prever todas as causas e consequências do que pode acontecer. A única coisa que podemos fazer é ser impecáveis, no sentido de fazer o melhor que nos é possível, ainda que dê trabalho.
Não basta aos pais botar uma criança no melhor colégio, pois geralmente o melhor colégio é apenas a escola da moda. Não basta os professores dizerem que fazem o melhor, quando se sabe que é impossível se dedicar com afinco com um salário aviltante.
Ver TV o tempo inteiro é um veneno para nós e, principalmente, para as crianças, mas as colocamos desde bebê na frente dessa caixa que tranquiliza e amortece os sentimentos, não importa o que realmente esteja passando. Somos violentos no trânsito com nossos semelhantes, com nossos semelhantes não-humanos, com o planeta. Furamos a fila, temos um amigo “autoridade” que resolve tudo e por aí vai. Não podemos exigir, portanto, uma conduta ética ou digna de quem quer que seja, pois não conseguimos isso nem de nós mesmos.
Resta a opção de rotular como louco, aberração, etc. Já no início do século, no caso das irmãs Papin, Lacan nos colocou na vala comum de todos os monstros da história. Basta o lugar errado, a mensagem errada, o contexto errado, e pode “cair a chave” ou “queimar o fusível” de qualquer um de nós, não importa quão superiores nosso ego acha que somos. As irmãs Papin tinham uma mãe que olhava demais, com um olhar crítico. Bastou a patroa dizer que as via como filhas e um dia reclamar do serviço, para tudo desmoronar. Ser impecável e manter-se vigilante são a única coisa que nos resta, pois somos todos humanos. Culpa de quem? Nietzsche, Freud, Lacan e Diogo Lara, que sempre nos lembram da nossa verdadeira condição, demasiado humana.
Agora, o caso de Wellington nos remete novamente às tentativas sempre incompletas de explicação. O bullying, a violência generalizada do Rio de Janeiro, o Islã, os pais, os professores, etc. No caso das irmãs Papin, foi Lacan quem deu a explicação que menos agradou a todos, pois deixou passar ao largo o consolo e a esperança de que nada daquilo aconteceria de novo.
Cada momento da vida é um evento, e é impossível prever todas as causas e consequências do que pode acontecer. A única coisa que podemos fazer é ser impecáveis, no sentido de fazer o melhor que nos é possível, ainda que dê trabalho.
Não basta aos pais botar uma criança no melhor colégio, pois geralmente o melhor colégio é apenas a escola da moda. Não basta os professores dizerem que fazem o melhor, quando se sabe que é impossível se dedicar com afinco com um salário aviltante.
Ver TV o tempo inteiro é um veneno para nós e, principalmente, para as crianças, mas as colocamos desde bebê na frente dessa caixa que tranquiliza e amortece os sentimentos, não importa o que realmente esteja passando. Somos violentos no trânsito com nossos semelhantes, com nossos semelhantes não-humanos, com o planeta. Furamos a fila, temos um amigo “autoridade” que resolve tudo e por aí vai. Não podemos exigir, portanto, uma conduta ética ou digna de quem quer que seja, pois não conseguimos isso nem de nós mesmos.
Resta a opção de rotular como louco, aberração, etc. Já no início do século, no caso das irmãs Papin, Lacan nos colocou na vala comum de todos os monstros da história. Basta o lugar errado, a mensagem errada, o contexto errado, e pode “cair a chave” ou “queimar o fusível” de qualquer um de nós, não importa quão superiores nosso ego acha que somos. As irmãs Papin tinham uma mãe que olhava demais, com um olhar crítico. Bastou a patroa dizer que as via como filhas e um dia reclamar do serviço, para tudo desmoronar. Ser impecável e manter-se vigilante são a única coisa que nos resta, pois somos todos humanos. Culpa de quem? Nietzsche, Freud, Lacan e Diogo Lara, que sempre nos lembram da nossa verdadeira condição, demasiado humana.
quinta-feira, 7 de abril de 2011
Carta do autor da chacina do Realengo
“Primeiramente deverão saber que os impuros não poderão me tocar sem luvas, somente os castos ou os que perderam suas castidades após o casamento e não se envolveram em adultério poderão me tocar sem usar luvas, ou seja, nenhum fornicador ou adúltero poderá ter um contato direto comigo, nem nada que seja impuro poderá tocar em meu sangue, nenhum impuro pode ter contato direto com um virgem sem sua permissão, os que cuidarem de meu sepultamento deverão retirar toda a minha vestimenta, me banhar, me secar e me envolver totalmente despido em um lençol branco que está neste prédio, em uma bolsa que deixei na primeira sala do primeiro andar, após me envolverem neste lençol poderão me colocar em meu caixão. Se possível, quero ser sepultado ao lado da sepultura onde minha mãe dorme. Minha mãe se chama Dicéa Menezes de Oliveira e está sepultada no cemitério Murundu. Preciso de visita de um fiel seguidor de Deus em minha sepultura pelo menos uma vez, preciso que ele ore diante de minha sepultura pedindo o perdão de Deus pelo o que eu fiz rogando para que na sua vinda Jesus me desperte do sono da morte para a vida eterna.
Eu deixei uma casa em Sepetiba da qual nenhum familiar precisa, existem instituições pobres, financiadas por pessoas generosas que cuidam de animais abandonados, eu quero que esse espaço onde eu passei meus últimos meses seja doado a uma dessas instituições, pois os animais são seres muito desprezados e precisam muito mais de proteção e carinho do que os seres humanos que possuem a vantagem de poder se comunicar, trabalhar para se alimentarem, por isso, os que se apropriarem de minha casa, eu peço por favor que tenham bom senso e cumpram o meu pedido, por cumprindo o meu pedido, automaticamente estarão cumprindo a vontade dos pais que desejavam passar esse imóvel para meu nome e todos sabem disso, senão cumprirem meu pedido, automaticamente estarão desrespeitando a vontade dos pais, o que prova que vocês não tem nenhuma consideração pelos nossos pais que já dormem, eu acredito que todos vocês tenham alguma consideração pelos nossos pais, provem isso fazendo o que eu pedi."
Eu deixei uma casa em Sepetiba da qual nenhum familiar precisa, existem instituições pobres, financiadas por pessoas generosas que cuidam de animais abandonados, eu quero que esse espaço onde eu passei meus últimos meses seja doado a uma dessas instituições, pois os animais são seres muito desprezados e precisam muito mais de proteção e carinho do que os seres humanos que possuem a vantagem de poder se comunicar, trabalhar para se alimentarem, por isso, os que se apropriarem de minha casa, eu peço por favor que tenham bom senso e cumpram o meu pedido, por cumprindo o meu pedido, automaticamente estarão cumprindo a vontade dos pais que desejavam passar esse imóvel para meu nome e todos sabem disso, senão cumprirem meu pedido, automaticamente estarão desrespeitando a vontade dos pais, o que prova que vocês não tem nenhuma consideração pelos nossos pais que já dormem, eu acredito que todos vocês tenham alguma consideração pelos nossos pais, provem isso fazendo o que eu pedi."
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